domingo, 12 de julho de 2020

O olho da dona que engorda o tomate


Já são mais de 100 dias e o dia exatamente número 100 não é muito diferente do dia 99 ou 101. Eu só não contei pra ninguém que era o dia 100, mas também não contei o 99 e o 101. Leva um tempo pra esse texto engatar, tem tantos passarinhos no quintal, comendo frutas, e beijando flores, que eu não sei se sempre estiveram aqui e eu que não estava pra observar, ou se eles se sentem mais à vontade com o movimento um pouco mais lento do mundo ao redor. Acho que devo começar dizendo que eu fiz isso do jeito errado, ao invés de comunicar às pessoas um afastamento voluntário eu deveria ter dito que mandaria o celular para assistência, ficaria apenas com wpp conectado no computador e checaria a mensagens poucas vezes ao dia. Seria mais fácil pra todes, eu imagino, mas me pego sempre evitando as saídas mais fáceis. Culpa católica que chama.
Auto gestão é a única coisa que consigo pensar que estive fazendo uns dias “longe” do celular. Ainda consultei as horas, programei e respondi alarmes, troquei mensagens sobre comida que sai da minha cozinha pra abraçar a barriga das pessoas que eu nunca mais pude abraçar de verdade. 
Nunca mais.
Desde que estive aqui, de volta. 
Fiz tantas coisas simples que precisam ser feitas todos os dias, com um pouco mais de presença e alegria. E uma frase ecoava na minha cabeça “os trabalhos cotidianos são fontes de resistência”.
Tem todos os jeitos de resistir a isso (e "isso" pode ser a pandemia, pode ser o sistema que disse que tem que pagar pra viver e existir, pode ser todo o mundo lá fora e/ou todo o mundo pra dentro) o meu jeito é compostar e plantar. Essa semana eu plantei duas bananeiras tombadas de uma moita com o ciclone. Elas moram agora onde antes havia uma jabuticabeira, que tombou com outro vento, anterior, que virou lenha, essa semana eu fiz uma fogueira e não fotografei. A sensação de carregar uma bananeira sobre a cabeça, usando seus dois braços, foi tão divertida e eu me senti tão poderosa que pensei “daria uma ótima foto”. Pois bem, por um segundo eu me projetei pra fora do corpo, me vi ali, de fora, tirei a foto mentalmente e voltei, pra colocar a bananeira na cova. Cada vez que eu passo por elas dou o maior sorriso que eu tenho.
Eu vi os tomates aumentarem a cada dia de tamanho, observei a diferença entre as folhas dos diferentes tipos que já estão produzindo. Encontrei fungo nas folhas mais próximas do solo e pensando de uma maneira geral, parece que aquele tomateiro não precisava delas, tirei as prejudicadas e joguei longe, só pra garantir. No processo percebi novos brotos, que pareciam ter o potencial de ser uma planta toda, independente, e não cabiam ali no espaço estreito da caixa. Tirei um e coloquei num canteiro, só pra ver o que aconteceria. Ele riu da minha cara murcho no outro dia, me chamando de incompetente, 3 dias depois eu ri de mim mesma que confundiu a própria insegurança com a voz do tomateiro, que apontava vistoso para o alto, abrindo as flores. Revisei todos os tomateiros a procura de mudas bem desenvolvidas para transplantar. Observei nitidamente a diferença entre folhas e brotos, óbvia, gritante. Fiz isso sem consultar o google, ou perguntar a alguém. Com um pouco de conhecimento que eu tenho sei que essas mudas têm potencial de produzir mais rápido porque foram retiradas de uma planta madura, estaquia que chama.
Essa semana eu meditei profundamente como não meditava há tempos, pratiquei yoga no quintal e vi as bananeiras de ponta cabeça, num sirsasana, depois de ter caído, rolando numa cambalhota e parando sentada pensando: “cair é divertido”. Eu caí uma segunda vez pra confirmar e depois assumi a postura como pretendia. Foi mais gratificante aprender a cair do que quando eu aprendi a estar na postura invertida.
Eu senti saudade de pessoas e não escrevi pra elas, eu só senti. Quis entender que lugar ocupa cada falta na minha vida. O que eu estava tentando preencher com os outros que só pode ser preenchido por mim mesma? Já faz tanto tempo que eu estou em casa quanto estive viajando por aí. Achei que viajaria pra ficar comigo mesma, mas o fato é que estive acompanhada a maior parte do tempo, de pessoas maravilhosas, de presentes preciosos que o universo colocou no meu caminho. De quem me ensinou a receita de pão, de quem me ensinou a medir e reproduzir receitas o mais fielmente possível, de quem me levou pra conhecer os Lençóis Maranhenses, de quem me contou que o ônibus levava menos tempo de Alter a Santarém do que o caminho de ida. De gente que me esperava ansiosamente com muita antecedência e de quem me recebeu de última hora, sendo paga para isso ou não. E só agora eu tive esse tempo pra ficar comigo mesma. Tudo o que está aqui, a minha volta, em parte sou eu, tudo que eu produzo e tudo que eu consumo, tudo que eu acolho e tudo que eu ignoro.
Ouvi muita música e as vezes fiquei em silêncio, eu dancei ao som de uma cebola fritando e ri com a lembrança de uma amiga que fazia música enquanto dizia que eu picava legumes de um jeito ritmado. A gente nunca mais se falou, e tudo bem. Imaginei como vai ser a próxima vez que dançarei ao som de música ao vivo, num espaço aberto, com gente ao redor. Não existe mais outra maneira de dançar a não ser "como se ninguém estivesse olhando". 
Ouvi músicas que amo há décadas e coisas totalmente inéditas, um oferecimento do algoritmo do aplicativo de música, você sabe qual, aquele famosão. Eu pago por isso, ele tem feito um bom trabalho. Estou trabalhando na barreira de resistência musical, aquele impulso que te faz trocar a música antes de 30 segundos, que você já julgou não ter gostado. Precisei estar sozinha e ter um não-humano decidindo qual seria a próxima música pra conseguir controlar esse impulso.
Eu não tenho mais a trilha sonora da vida que eu trilho há pouco mais de um ano, 16,99 é o preço que eu pago por não ter mais você pra fazer playlists e me apresentar música nova. No geral, eu acho que temos nos saído muito bem. Cabe aqui um parabéns.
Comi um pão de fermentação natural com geleia de juçara e com pesto do manjericão da minha horta (não na mesma fatia) e não fotografei, e comi tantas outras coisas que eu me disse mentalmente: “tem que incluir isso na lista de coisas que comi e não fotografei”. Eu esqueci que coisas eram essas. E esse parágrafo ficou até melhor assim.
Ansiei pelo dia que sentaria pra escrever esse texto e agora já sei que ele é grande demais pra uma certa rede social, e não sei o que fazer com ele, só sei que quero continuar. Sentei para escrever e agora não quero mais parar. E isso é magnífico.
Recebi mensagens desimportantes e importantes, e consegui filtrar. Eu fui respeitada e desrespeitada na minha necessidade de afastamento, porém não fui surpreendida com quem fez o quê. Eu não me deixei desrespeitar e enquanto isso estiver ao meu alcance pretendo que seja assim. Recebi a melhor ligação de todas, de uma das melhores amigas de todas: “só pra saber como você está, se sobreviveu e como?” não sem antes perguntar se “tá podendo falar?” e a gente conversou meia hora e foi ótimo, ninguém travou, não caiu, a gente podia dizer coisas simultaneamente, mas também respeitamos a vez uma da outra de falar, só nos sentindo e depois de meia hora “eu preciso voltar pra isso aqui” e despedidas amorosas e meu coração se encheu de alegria pra terminar o último trabalho que antecederia a volta pras mídias e leituras, aparelhos e livros. E louça, a louça sempre vai estar lá, te esperando, haja o que houver.

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