Já são mais de 100
dias e o dia exatamente número 100 não é muito diferente do dia 99
ou 101. Eu só não contei pra ninguém que era o dia 100, mas também
não contei o 99 e o 101. Leva um tempo pra esse texto engatar, tem
tantos passarinhos no quintal, comendo frutas, e beijando flores, que
eu não sei se sempre estiveram aqui e eu que não estava pra
observar, ou se eles se sentem mais à vontade com o movimento um
pouco mais lento do mundo ao redor. Acho que devo começar dizendo
que eu fiz isso do jeito errado, ao invés de comunicar às pessoas um
afastamento voluntário eu deveria ter dito que mandaria o celular
para assistência, ficaria apenas com wpp conectado no computador e
checaria a mensagens poucas vezes ao dia. Seria mais fácil pra
todes, eu imagino, mas me pego sempre evitando as saídas mais
fáceis. Culpa católica que chama.
Auto gestão é a
única coisa que consigo pensar que estive fazendo uns dias
“longe” do celular. Ainda consultei as horas, programei e
respondi alarmes, troquei mensagens sobre comida que sai da minha
cozinha pra abraçar a barriga das pessoas que eu nunca mais pude
abraçar de verdade.
Nunca mais.
Desde que estive aqui, de volta.
Fiz
tantas coisas simples que precisam ser feitas todos os dias, com um
pouco mais de presença e alegria. E uma frase ecoava na minha cabeça
“os trabalhos cotidianos são fontes de resistência”.
Tem todos os jeitos
de resistir a isso (e "isso" pode ser a pandemia, pode ser o sistema
que disse que tem que pagar pra viver e existir, pode ser todo o
mundo lá fora e/ou todo o mundo pra dentro) o meu jeito é compostar
e plantar. Essa semana eu plantei duas bananeiras tombadas de uma
moita com o ciclone. Elas moram agora onde antes havia uma
jabuticabeira, que tombou com outro vento, anterior, que virou lenha,
essa semana eu fiz uma fogueira e não fotografei. A sensação de
carregar uma bananeira sobre a cabeça, usando seus dois braços, foi
tão divertida e eu me senti tão poderosa que pensei “daria uma
ótima foto”. Pois bem, por um segundo eu me projetei pra fora do
corpo, me vi ali, de fora, tirei a foto mentalmente e voltei, pra
colocar a bananeira na cova. Cada vez que eu passo por elas dou o
maior sorriso que eu tenho.
Eu vi os tomates
aumentarem a cada dia de tamanho, observei a diferença entre as
folhas dos diferentes tipos que já estão produzindo. Encontrei
fungo nas folhas mais próximas do solo e pensando de uma maneira
geral, parece que aquele tomateiro não precisava delas, tirei as
prejudicadas e joguei longe, só pra garantir. No processo
percebi novos brotos, que pareciam ter o potencial de ser uma planta
toda, independente, e não cabiam ali no espaço estreito da caixa.
Tirei um e coloquei num canteiro, só pra ver o que aconteceria. Ele
riu da minha cara murcho no outro dia, me chamando de incompetente, 3
dias depois eu ri de mim mesma que confundiu a própria insegurança
com a voz do tomateiro, que apontava vistoso para o alto, abrindo as
flores. Revisei todos os tomateiros a procura de mudas bem
desenvolvidas para transplantar. Observei nitidamente a diferença
entre folhas e brotos, óbvia, gritante. Fiz isso sem consultar o
google, ou perguntar a alguém. Com um pouco de conhecimento que eu
tenho sei que essas mudas têm potencial de produzir mais rápido
porque foram retiradas de uma planta madura, estaquia que chama.
Essa semana eu
meditei profundamente como não meditava há tempos, pratiquei yoga
no quintal e vi as bananeiras de ponta cabeça, num sirsasana, depois
de ter caído, rolando numa cambalhota e parando sentada pensando:
“cair é divertido”. Eu caí uma segunda vez pra confirmar e
depois assumi a postura como pretendia. Foi mais gratificante
aprender a cair do que quando eu aprendi a estar na postura
invertida.
Eu senti saudade de
pessoas e não escrevi pra elas, eu só senti. Quis entender que
lugar ocupa cada falta na minha vida. O que eu estava tentando
preencher com os outros que só pode ser preenchido por mim mesma? Já
faz tanto tempo que eu estou em casa quanto estive viajando por aí.
Achei que viajaria pra ficar comigo mesma, mas o fato é que estive
acompanhada a maior parte do tempo, de pessoas maravilhosas, de
presentes preciosos que o universo colocou no meu caminho. De quem me
ensinou a receita de pão, de quem me ensinou a medir e reproduzir
receitas o mais fielmente possível, de quem me levou pra conhecer os
Lençóis Maranhenses, de quem me contou que o ônibus levava menos
tempo de Alter a Santarém do que o caminho de ida. De gente que me
esperava ansiosamente com muita antecedência e de quem me recebeu de
última hora, sendo paga para isso ou não. E só agora eu tive esse
tempo pra ficar comigo mesma. Tudo o que está aqui, a minha volta,
em parte sou eu, tudo que eu produzo e tudo que eu consumo, tudo que
eu acolho e tudo que eu ignoro.
Ouvi muita música e
as vezes fiquei em silêncio, eu dancei ao som de uma cebola fritando
e ri com a lembrança de uma amiga que fazia música enquanto dizia
que eu picava legumes de um jeito ritmado. A gente nunca mais se
falou, e tudo bem. Imaginei como vai ser a próxima vez que dançarei ao som de música ao vivo, num espaço aberto, com gente ao redor. Não existe mais outra maneira de dançar a não ser "como se ninguém estivesse olhando".
Ouvi músicas que amo há décadas e coisas
totalmente inéditas, um oferecimento do algoritmo do aplicativo de
música, você sabe qual, aquele famosão. Eu pago por isso, ele tem
feito um bom trabalho. Estou trabalhando na barreira de resistência
musical, aquele impulso que te faz trocar a música antes de 30
segundos, que você já julgou não ter gostado. Precisei estar
sozinha e ter um não-humano decidindo qual seria a próxima música
pra conseguir controlar esse impulso.
Eu não tenho mais a
trilha sonora da vida que eu trilho há pouco mais de um ano, 16,99 é
o preço que eu pago por não ter mais você pra fazer playlists e me
apresentar música nova. No geral, eu acho que temos nos saído muito
bem. Cabe aqui um parabéns.
Comi um pão de
fermentação natural com geleia de juçara e com pesto do manjericão
da minha horta (não na mesma fatia) e não fotografei, e comi tantas
outras coisas que eu me disse mentalmente: “tem que incluir isso na
lista de coisas que comi e não fotografei”. Eu esqueci que coisas
eram essas. E esse parágrafo ficou até melhor assim.
Ansiei pelo dia que
sentaria pra escrever esse texto e agora já sei que ele é grande
demais pra uma certa rede social, e não sei o que fazer com ele, só
sei que quero continuar. Sentei para escrever e agora não quero mais
parar. E isso é magnífico.
Recebi mensagens
desimportantes e importantes, e consegui filtrar. Eu fui respeitada e
desrespeitada na minha necessidade de afastamento, porém não fui
surpreendida com quem fez o quê. Eu não me deixei desrespeitar e
enquanto isso estiver ao meu alcance pretendo que seja assim. Recebi
a melhor ligação de todas, de uma das melhores amigas de todas: “só
pra saber como você está, se sobreviveu e como?” não sem antes
perguntar se “tá podendo falar?” e a gente conversou meia hora e
foi ótimo, ninguém travou, não caiu, a gente podia dizer coisas
simultaneamente, mas também respeitamos a vez uma da outra de falar,
só nos sentindo e depois de meia hora “eu preciso voltar pra isso
aqui” e despedidas amorosas e meu coração se encheu de alegria
pra terminar o último trabalho que antecederia a volta pras mídias
e leituras, aparelhos e livros. E louça, a louça sempre vai estar
lá, te esperando, haja o que houver.